
Cistite Intersticial ou Síndrome da Bexiga Dolorosa
Publicado: 09/12/2025

Publicado: 09/12/2025
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Se você já sentiu aquela dor persistente, aquela pressão desconfortável na bexiga que não passa, mesmo sem infecção, e que piora quando a bexiga enche, esse conteúdo é para você. A cistite intersticial é uma condição crônica, dolorosa e, infelizmente, pouco compreendida, que afeta a qualidade de vida de uma forma profunda. E ela se comporta como uma das síndromes de dor crônica, como a fibromialgia ou a síndrome do intestino irritável.
É um diagnóstico de exclusão, ou seja, chegamos a ele depois de afastarmos todas as outras possíveis causas para a dor. Continue a leitura deste artigo e conheça mais sobre como identificar quadros de Cistite Intersticial ou Bexiga Dolorosa.
A cistite intersticial, ou síndrome da dor na bexiga, começa com uma sensação desagradável que pode ser dor, pressão ou desconforto, que a gente percebe estar ligada à bexiga. Essa sensação dura mais de seis semanas e, o mais importante, não há infecção ou outras causas identificáveis. Esse problema é bem mais comum em mulheres do que em homens e, em geral, é diagnosticado a partir dos 40 anos.
A gente ainda não sabe exatamente o que causa a cistite intersticial, que pode ter várias causas envolvidas ao mesmo tempo. Há quem ache que o problema vem a partir de alguns defeitos na membrana que reveste a bexiga.
Pense na bexiga como um balão. Por dentro, ela tem uma camada protetora. Se essa camada protetora tem falhas, substâncias irritantes da urina conseguem penetrar e ativar nervos e músculos, causando dor e sensibilidade.
Além disso, existe uma hipersensibilidade dos nervos que leva a sensação de dor à bexiga. É como se o sistema de alarme do corpo estivesse com defeito, disparando com qualquer movimento, em vez de só com uma ameaça real. Isso explica porque a dor piora quando a bexiga enche, mesmo que de forma normal.
Alguns dos principais sinais que podem indicar a cistite intersticial são:
Se observar bem, tirando estas últimas, da relação sexual, todos os demais sintomas são igualmente indícios de infecção urinária, situação muito mais comum em mulheres que têm bexiga dolorosa, por isso, é a primeira coisa que a gente deve pensar.
Nós devemos realizar a cultura da urina e o exame de urina I ou urina rotina antes de iniciar qualquer tratamento, principalmente antes de usar antibióticos, porque o uso recente de antibióticos aumenta as chances de uma cultura falsa negativa.
Quando parecemos ter infecção urinária toda hora e as culturas da urina não conseguem identificar nenhum agente, pelo menos na maior parte do tempo, é hora de começar a abrir o leque de opções e pensar na bexiga dolorosa.
Muitos pacientes relatam que o quadro parece melhorar ao se tomar antibióticos, mas o problema é que a dor da bexiga dolorosa evolui por crises, ou seja, não é constante e pode melhorar sozinha para depois voltar. E esta melhora coincide com estar tomando antibiótico para uma suposta infecção urinária nunca comprovada, o que acaba confundindo ainda mais a história.
Para se fazer o diagnóstico da cistite intersticial é necessário excluir todas as outras causas que podem ter sintomas parecidos. Para isso, é necessário fazer um bom recordatório de toda a história, especificando bem os detalhes dos sintomas, sua duração, o que alivia ou piora a dor (como alimentos, estresse ou atividade física), e outras doenças que a pessoa também pode ter como autoimunes, outras crônicas ou mesmo agudas.
Depois, é necessário fazer um exame físico bem detalhado buscando pontos de dor. O paciente também precisa ter persistência em fazer um monte de exames de urina e não sair tomando antibiótico de primeira por conta própria.
Vários aspectos que aparecem no exame simples de urina I podem apontar para outros problemas, como sangue na urina, oxalato de cálcio na urina, etc. O contato com médico especialista de confiança deve ser bem próximo porque todo este processo causa dúvidas e angústias.
Exames de imagem, como USG ou tomografias das vias urinárias, necessitam sempre ser realizados, o mais provável é que estejam normais, mas não podemos deixar de fazê-lo, pois nos ajudam a descartar várias outras causas como endometriose, doença inflamatória pélvica, atrofia urogenital (na pós-menopausa), pedras nos rins, câncer na bexiga ou uretra, obstruções uretrais. Existem também outras causas como: síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal, dor miofascial pélvica, neuropatias periféricas ou dor neuropática pélvica.
A cistoscopia é um exame de imagem muito específico no qual se introduz uma pequena câmera no interior da bexiga e avalia o aspecto da mucosa dentro da uretra e da bexiga. É um exame bastante incômodo, difícil de encontrar ambulatorialmente e, geralmente, não é necessário. Normalmente, a gente faz este exame se tiver sangramento na urina para descartar tumores, por exemplo.
Quero compartilhar um caso que me marcou profundamente.
Há uns anos, recebi uma paciente, que vou chamar de Maria. Ela chegou ao consultório, com 35 anos, visivelmente exausta e frustrada, e me contou que há mais de dois anos vivia em uma montanha-russa de dor.
A dor começou após uma infecção urinária que foi tratada e curada, mas a dor na bexiga ficou. Ela me disse: “Dra., é como se a minha bexiga estivesse sempre ‘inchada’ e ‘espetando’.”
Ela vivia no banheiro, a cada 15 ou 20 minutos, para esvaziar a bexiga e ter um alívio momentâneo, mas a dor voltava imediatamente. Isso ocorria até mesmo durante a noite, acabando com a qualidade do seu sono; ela chegava a dormir sentada no vaso sanitário de tanto cansaço.
A vida social de Maria se desfez. Ela evitava sair de casa, não conseguia mais viajar de carro, até mesmo reuniões de trabalho se tornaram um pesadelo. Emocionalmente, estava no limite. Já havia passado por vários médicos, feito dezenas de exames e a maioria dos diagnósticos era de “ansiedade” ou “infecção urinária de repetição”.
Muitos médicos já deixavam uma receita de antibiótico para ela começar a tomar em caso de dor e já nem pediam exames de urina. Muitos a olhavam com descrença, como se a dor dela fosse um exagero ou mesmo uma invenção.
Ela me contou que estava noiva e querendo ter filhos em breve, mas com esta situação, era impossível. Quando explicou que a dor não era aliviada por antibióticos e que piorava com alguns alimentos ácidos e o estresse, a luz de alerta se acendeu. Depois de uma avaliação completa, de descartar infecções e outras causas, nós finalmente chegamos ao diagnóstico: cistite intersticial.
O diagnóstico trouxe um alívio imenso para ela. Não porque a dor tinha sumido, mas porque, pela primeira vez, tinha um nome para o que sentia. Ela não estava louca, a dor era real e, a partir daí, iniciamos o seu tratamento.
O objetivo do tratamento não é curar a doença, mas controlar os sintomas e devolver a qualidade de vida ao paciente. Não existe uma única abordagem que funcione para todos. O tratamento é como um quebra-cabeça e a gente monta ele junto com o paciente.
A primeira etapa envolve a educação e o aconselhamento. Eu explico sobre a doença, que é crônica, o alívio pode levar tempo e exigir persistência. Depois, vêm as mudanças comportamentais e no estilo de vida.
Na dieta, a gente investiga quais alimentos podem estar piorando os sintomas. Alimentos ácidos, cafeína, álcool, adoçantes artificiais e pimenta são os mais comuns, mas tem que ver quais são os gatilhos específicos de uma pessoa. Eu brinco que se fizermos uma lista com tudo que pode causar a crise, iria comer só gelo. Então, o ideal é fazer um diário alimentar e de crises para identificar o que causa a dor.
No controle do estresse, a gente tem que ser pragmático; existem várias medidas não farmacológicas que ajudam, como realização regular de atividade física, técnicas de relaxamento etc, mas a depender da gravidade desse estresse, a parte não medicamentosa não dá conta e a gente precisa entrar com medicação para ficar bem de saúde mental.
A Fisioterapia pélvica é muito útil para a grande parte dos doentes, pois é muito comum a existência de dor, tensão e contratura dos músculos da pelve, especialmente do assoalho pélvico.
Quando feita por um profissional especializado, pode trazer um alívio significativo, além de ajudar a prevenir outras dores miofasciais na região que podem piorar o quadro ainda mais. Dores miofasciais são dores que ocorrem devido à contratura muscular persistente, independente da causa dessa contratura, que pode ser desde estresse até outra dor já presente, como a própria bexiga dolorosa, ou seja, é um ciclo vicioso da dor na qual uma coisa piora a outra.
Em paralelo a tudo isso, é necessário iniciar o arsenal medicamentoso. Para início do alívio imediato da dor temos os anti-inflamatórios não esteroides como o ibuprofeno, naproxeno (alívio da dor) e analgésicos urinários: fenazopiridina (pode reduzir urgência e dor ao urinar, uso de curto prazo), mas só dá para usar estes medicamentos por alguns dias e são apenas para controle dos sintomas.
Já para tratamento de longo prazo, a amitriptilina, um tipo de antidepressivo muito antigo, mas que ainda hoje é uma das primeiras escolhas para este quadro com respostas incríveis já com doses baixas em muitos pacientes. Neuromoduladores como a pregabalina ou a gabapentina com dosagens muito variadas, a depender da resposta e da tolerância.
Existe um remédio chamado pentosano polissulfato de sódio (PPS), que é o único medicamento oral aprovado especificamente para a cistite intersticial nos EUA. Ele ajuda a reconstruir a camada protetora da bexiga, mas não é para uso prolongado, uma vez que pode aumentar o risco de outros problemas à saúde e também não está disponível comercialmente no Brasil de forma regular.
Para os casos de mais difícil controle existem procedimentos urológicos com aplicação diretamente na bexiga (por meio de uma sonda). Este procedimento é chamado de instilação intravesical e pode ser feito com diversas substâncias como: lidocaína, heparina, dimetilsulfóxido (DMSO), ácido hialurônico ou condroitina. Existem estudos que apontam até a toxina botulínica para controle dos sintomas.
Para os casos mais refratários temos uma coisa muito bacana que é a cirurgia de neuromodulação sacral, na qual é colocado um dispositivo que estimula os nervos da bexiga para controlar a dor.
E um último recurso é a cirurgia de desvio urinário, que busca retirar ou excluir a bexiga do fluxo urinário. É uma cirurgia de grande porte, com altos riscos de infecção, complicações intestinais, estenoses, necessidade de cateterismo intermitente e impacto na qualidade de vida. Por isso, é reservada para último recurso em casos selecionados, em centros especializados.
A história de Maria teve um final feliz. Com a combinação de dieta, Fisioterapia pélvica e um tratamento medicamentoso com amitriptilina e gabapentina, conseguiu um alívio considerável da dor. Ela voltou a sair com os amigos, a viajar e já está organizando o casório.
Se você se identificou com a história da Maria, saiba que não está sozinho. A jornada pode ser longa, mas com o diagnóstico correto e um plano de tratamento personalizado, a qualidade de vida pode ser recuperada.
Artigo Publicado em: 1 de abr de 2017 e Atualizado em: 9 de dez de 2025
Vocês poderiam acrescentar que glúten e lactose pioram muito também os sintomas dos portadores de CI.
Depois de 3 anos sofrendo de CI. 1 ano e 2 meses para ter diagnóstico e depois de tentar tirar alimentos ácidos e ainda assim não ter sucesso. Encontrei um grupo no facebook que orienta experimentar tirar o glúten e lactose estou melhor. Tive muitas recaídas, pois não é fácil, mas a alimentação funcional é uma boa opção.
Bom dia e obrigada pelo comentário. Vários pacientes relatam esta experiência e é algo que temos em consideração durante o manejo.
Com certeza. Eu praticamente me curei dessa doença indo numa boa nutricionista funcional. Tomo probiotico, zero glúten, zero açúcar e zero leite e derivados. Muita, fruta, verdura, raízes. Infelizmente os médicos pouco falam da alimentação. Essa CI nada mais é do que um corpo mega inflamado, um intestino cheio de bactérias ruins, microbiota destruída.
Olá. Sofro com esse problema a uns 15 anos ja ..estou correndo em.medicos tds esses anos …e nao aparece nada nos exames de sangue…..cultura…ecografia ….tenho milhares de exames estou exausta de td isso…nunca ta nada …e a cada dia esta piorando mais …hj estou limitada pq a dor e terrivel dor pelvica …ardencia na uretra na vagina ….dores lombar sangue Na urina ….peso pressão….dores…medicos dizem que nao tenho nada ..que estou loUca …..preciso de ajuda ……estou
Olá , estou à sua disposição. Basta ligar para o telefone (11) 2533 0292 ou pelo WhatsApp (11) 96338 2866 e agende uma consulta. Será um prazer recebê-la.
https://www.google.com.br/maps/place/Dra.+Keilla+Mara+de+Freitas+-+Consult%C3%B3rio+de+Infectologia/@-23.6020032,-46.6565661,17z/data=!3m1!4b1!4m5!3m4!1s0x94ce5a19c5c5b82f:0x4b974edcf8286daf!8m2!3d-23.6020081!4d-46.6543774
Cris procura no Facebook cistite intersticial tem muitas pessoas relatando experiências que poderão te ajudar. Cuida da alimentação que ajuda muito. Outro fator e o emocional.
Dra Keilla, quem tem cistite intersticial vai sentir urgência urinária todos os dias, para o resto da vida? Ou existem períodos em que a pessoa está normal, urinando normalmente, sem essa urgência?
Pode existir situações de melhora e de piora.
existe tratamento adequado para controle dos sintomas como os mencionados no texto.
tenho cistite intersticial ha 7 anos minha vida mudou para pior . ja fui em varios medicos do rio de janeiro e minas gerais.tem dia que eu quero morrer..meu casamento minha vida social a cabou.pois virei prisioneira dentro da minha casa a te remedios importados ja tomei .e nada..me ajude por favor….
Estou a sua disposição para te avaliar pessoalmente, realizarmos o exames necessários e tomarmos a conduta spertinentes. nesse link está o contato do consultório: https://www.drakeillafreitas.com.br/contato/
Manter na escrita, ótimo trabalho!
Obrigada.
Olá Dr!Gostaria de saber se cistite intersticial causa hematuria microscopica na urina?
Sim, é uma das causas mais frequentes para sangue na urina.
Você precisa se consultar com um médico infectologista de sua confiança para te avaliar pessoalmente e pedir os exames necessários.